Não falte o amor a quem quer amar

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Isso é uma provocação. Uma provocação sadia para uma gota de pensamento. O amor está na moda. O amor está na mídia. O amor está posto nas religiões – ao menos na maioria delas. O amor está no ar. MAS O AMOR ESTÁ EM LUGAR ALGUM!

Idealizamos o amor. Pasteurizamos a expressão amar. Engavetamos os desejos mais ousados de amor. Subvertemos a paixão e a submetemos ao prazer egoísta. Logo a paixão que era tão livre! E condicionamos o amor incondicional.

Não é culpa somente da sociedade. Não é responsabilidade somente do sistema político e econômico. Não é, também, casualidade da modernidade desenfreada que destila os sentimentos, evapora o que não seja ganho e sublima o que é conveniente ao bem egoístico da pessoa. E é aqui que, talvez, resida a derrocada do amor.

O egoísmo não é gratuito. O egoísmo é resultado de uma estagnação da pessoa, que prende-se ao seu eu mais infantil. A criança é egoísta para sobreviver. E os adultos são egoístas para manterem-se com esse paradigma infantil. Ninguém quer ter de escolher ou fazer opções. Como crianças, muitas pessoas querem conviver com tudo que lhes parece bom, sem abrir mão de nada. Ninguém quer perder e por isso protegem-se dentro de seu berço de ego inocente, mas nocivo. O amor infantil é egoísta e cheio de trocas e negociações. O amor adulto é feito de abnegações e concessões. Entre a criança e o adulto está o tempo do amadurecimento, que nem todos têm tido o ímpeto de viver. E portanto, o amor de hoje acaba verde, marrento, azedo e, por vezes, amargo. Porém, todos querem amar!

Antes de concluir, preciso afirmar como todas as letras que PARA RESGATAR O VERDADEIRO AMOR é preciso saber que:

  1. Sofrer não é amar. Mas o sofrimento é inevitável quando se tem de fazer concessões. Mas quando cedemos, o sofrimento inicial pode se transformar em algo benéfico, porque, como a palmada ou a correção materna e paterna feita à uma criança, esse sofrimento pela negação de algo nos corrige e nos faz menos egoístas e mais maduros. É preciso ter o “feeling” para saber o quanto ceder e o quanto exigir numa relação de amor a dois.
  2. Prazer físico não é o único benefício do amor. Trocar o prazer duradouro de uma companhia verdadeira, que caminhe ao nosso lado em todos os momentos por uma companhia de algumas horas é uma incoerência. Horas de prazer não duram mais que momentos. Companheirismo cotidiano, que nem sempre traz prazer físico, mas sentimental e psicológico, dura séculos. Mas é preciso controlar a vontade de prazer físico – e para isso há certo sofrimento pela negação -, para conseguir o prazer da companhia. A maioria das pessoas pensa no amor a dois somente como fonte do prazer físico e é por isso que tem muita gente que preza muito mais os amigos que os amantes: os amigos sabem ser companheiros. Porém, que tal se os amantes também fossem amigos-companheiros? Porque amigos não preenchem o vazio da solidão, quando fechamos a porta de casa e queremos alguém mais perto de nós, inclusive em nossa cama.
  3. O outro é o foco. Amor maduro coloca o foco no outro. Viver esse tipo de amor na relação a dois é como realizar o trabalho de um bom fotógrafo, que tira uma ótima foto: toda atenção, toda luz, todo foco, todo o esforço e toda produção está sempre em quem está sendo fotografado. Emprega-se todo o esforço possível para que a pessoa retratada fique bem na imagem. O bom fotógrafo registra a realidade da pessoa, sem idealizá-la e sem transformá-la em outra. Um bom fotógrafo não precisa de Photoshop a não ser para corrigir uma imperfeição que distorceu a realidade. Mas um bom fotógrafo jamais inventa, ou distorce, ou recria a pessoa fotografada. Assim deve ser a dedicação de um para o outro no amor de casal: um fotografando o outro todos os dias. E que cada um que é fotografado aja como um bom modelo ou uma boa modelo. Pois tenham sempre em mente: a pessoa que é fotografada também precisa ajudar o fotógrafo, pois um(a) modelo que não participa ativamente do ensaio fotográfico estraga o trabalho do melhor e mais conceituado fotógrafo do mundo. Uma pessoa que colabora com o ensaio fotográfico transforma um “lambe-lambe” em um gigante da fotografia.

E foi por tudo isso que afirmamos no título: não falte o amor a quem quer amar. Mas também que não falte:

  1. A vontade real de amar, que significa querer “fotografar” para sempre a outra pessoa.
  2. A maturidade de saber ceder e conceder antes de endurecer-se e exigir.
  3. O desejo por companhia na vida antes do desejo de prazer por momentos.
  4. A intenção de que o outro seja sempre ele, revelado em todas as suas cores e nuances de luzes e sombras e enxergado como é, sem idealizações. Que todo o esforço seja para revelar o que o outro tem de bom. E que o suportar das coisas não boas seja uma vontade de continuar ajustando o foco para um melhor ângulo ou um ajuste de posição para a melhor fotografia do casal.
Amor, Relacionar-se
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