Dia dos namorados

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A proximidade da comemoração do Dia dos Namorados e a crescente onda de propagandas em todos os meios de comunicação provocaram-me.

Não quero falar sobre as variantes do conceito de namorar que hoje aparecem, porque muitos livros não seriam suficientes para esgotar tantas variações que hoje vão surgindo para atender a uma demanda cada vez mais particular de situações que se pretende apresentar como válidas e acertadas para a maioria. A intenção é tentar resgatar o modelo de namoro que ainda é válido, porque ele é humana e antropologicamente coerente.

Sem esticar o assunto, o modelo de namoro que ainda é o mais “seguro” e coerente do ponto de vista psicológico, emocional e, porque não dizer, físico, é aquele em que se estabelecem os limites para se investir no conhecimento do outro. O namoro assim conceituado mantém uma linha imaginária que estabelece os limites da intimidade do conhecer, de acordo com a cultura social e familiar de cada pessoa.

Não se nega que exista uma possibilidade de um avanço no relacionamento que envolve a intimidade sexual, pois permite que aquele casal faça uma experiência mais profunda do conhecimento do outro, que é o desnudar do corpo, belo e precioso, e o encontro sexual apaixonado que deveria ser motivado por um exercício profundo, intenso e amadurecido do verdadeiro amor, que não é somente sentimento.

Bem, mas é aí que reside todo o problema. Por coerência de vida, esse aprofundamento, essa intensidade, e esse amadurecimento do amor não acontecem de uma hora para a outra. Leva um tempo. Tempo que varia de casal para casal, de situação para situação de vida. Essa variação de tempo tem como componentes: a faixa etária dos envolvidos; o nível intelectual de cada pessoa; a situação socioeconômica na qual estão inseridos e que geralmente remete à classe social a qual pertencem; o nível de maturidade emocional de cada um – lembrando que existem pessoas que têm 40 anos e ainda são adolescentes e que o contrário também existe; a educação familiar que não pode e nem deve ser desprezada; e o habitat no qual interagem socialmente. Só para ficar em alguns pontos. Se observarmos a maioria dos namoros de nossos dias, dificilmente poderíamos classificá-los como aptos a uma experiência íntima, sexualmente falando. Muitos dos casais, devido a distrações, saltos de fases na vida e nos relacionamentos, falta de informação sobre as consequências de um envolvimento sexual e influências e incentivos de terceiros (colegas, amigos, meios de comunicação que insistem em “sexualizar” um grande número de situações e produtos) os levam a um despertar prematuro dos instintos sexuais, que dificilmente serão controlados. E se consideramos que o casamento deveria ser um nível mais alto desse relacionamento, onde tranquilamente se teria as condições necessárias para a vivência de casal com o exercício do ato sexual, também precisamos refletir sobre como é que muitos chegam a esse casamento. Arrisco a dizer que há casais casados que não estariam aptos para serem amantes a esse nível, até porque viveram um namoro sem consistência.

Por isso, assim como afirmo na abertura desse pequeno artigo, que pretendo continuar em mais oportunidades para poder refletir esse tema que é tão interessante, é mais seguro manter um limite mais coerente com o ritmo de vida que as pessoas hoje levam. Não podemos deixar que o relacionamento sexual seja cada vez mais encarado como uma diversão ou como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, como querem pensar alguns grupos. Para diversão e para alívio das tensões cotidianas ainda existem os mais diversos entretenimentos que vão do passeio no parque ao cinema. Mas encarar, de fato, o relacionamento sexual, a transa, como uma opção consciente daqueles que conhecem a si mesmos, conhecem o contexto de vida que participam, o ambiente do qual fazem parte, e tem, no mínimo, um nível de conhecimento do outro que lhes garanta um pouco de segurança emocional, psicológica e física para poderem entregar-se. Sem isso, continuaremos a ter pessoas que fogem às suas responsabilidades quando algo de errado acontece no relacionamento ou que precisam criar tantos artifícios para poderem curar ou minimizar feridas abertas por um relacionamento desastrado, superficial e fugaz que os fez desnudar-se por completo diante de uma pessoa que não merecia nem 10% daquilo que receberam.

E onde entra a provocação que recebi dos meios de comunicação nessa proximidade com a comemoração do Dia dos Namorados? Entra exatamente na questão do despertar do instinto sexual. Em favor de um aquecimento das vendas, usa-se oferecer produtos que visam estimular o relacionamento íntimo sexual dos casais de namorados, sem se dar conta que hoje temos realidades tão díspares quando se fala em namoro. Temos casais de namorados pré-adolescentes e casais de namorados na faixa dos 30 e 40 anos. São todos namorados. Cada um em sua particularidade de vida. Cada um com sua vivência, experiência e maturidade. Em detrimento do bem-estar, da coerência e do respeito aos tipos de relacionamento, oferece-se cremes de chocolate para massagens, momentos inesquecíveis, diárias paradisíacas a dois em recantos convidativos, finais de semana a dois com direito a tudo (lembrando que, neste ano, o Dia é um domingo), entre tantos… Não se vende mais a simples, mas doce, caixa de bombons, o buquê de flores e o simples jantar romântico nos restaurantes da cidade, que permitiria a conversa sobre o outro, seus gostos, desejos, vontades e projetos. E que permitiria a cada um avaliar qualidades e defeitos em um nível tal e com uma segurança tal que permita desmanchar um relacionamento com o mínimo possível de prejuízo. A saber: terminar um relacionamento sem ter que dar a si mesmo explicações ou oferecer-se fugas para minimizar internamente a dor de ter entregado o melhor de si, o mais íntimo a quem não merecia.

Agora, parece que é preciso movimentar os motéis, as sex shops, os bares da moda, as baladas mais ousadas, entre tantas outras coisas que sobrevivem do comércio despertado pelo apelo erótico, sensual e sexual. Falta respeito às diversas realidades. E o que pode acontecer e, geralmente, acontece com esse desrespeito pela realidade pessoal é que se desperta o instinto sexual em pessoas que ainda não estão preparadas para isso e volto a afirmar: preparo não tem nada a ver com a idade simplesmente.

Assim como a sociedade e os meios de comunicação dizem que não se pode recriminar o namoro vivido com uma maior liberdade sexual, também se deve respeitar e apresentar como válido e bom o namoro vivido sem o apelo do sexo. A mídia deve respeitar e segmentar as diversas realidades de namoro existentes. É assim que se cria uma sociedade verdadeiramente plural e democrática.

Namoro, Relacionar-se

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